05-05-2008

Sem ervilha Pepe

Porque?!
Ah... eu estava tão cheio daquele dia onde nada dava certo, tão cheio desta porcaria de dia onde meu chefe tinha resolvido mostrar porque era chefe, onde até mesmo meu cachorro quente tinha vindo com a droga da ervilha. Aqueles trequinhos verdes com gosto de feijão estragado... eu sempre pedia sem ervilha para o cara. “O de sempre Pepe, sem ervilha.” – eu dizia. “Beleza chefe” – ele respondia, e eu me sentia mais feliz e importante. Pelo menos o Pepe me respeitava, pelo menos com o Pepe eu tinha o poder de decidir alguma coisa sobre minha vida. Sem ervilha, sem ervilha, eu repetia dia após dia. Agora o Pepe já sabia como eu gostava: “Sem ervilha, né chefe?” – ele me falava assim que eu chegava”. “É isso ai Pepe.” – eu lhe dizia acenando com a cabeça e sorrindo feliz e austero. Pelo menos uma vez, a vida se curvava ante minha vontade. Pelo menos meu cachorro quente eu podia comer como eu quisesse.
Entre meu chefe desgraçado e minha esposa azeda eu tinha o doce prazer de não comer ervilha no cachorro quente. O pequeno, ameno e delicioso prazer de não comer ervilhas. Deus fizera as ervilhas e eu, com alegria e presunção as renegava! Fora malditas!
Minha mulher decidia o que eu devia vestir, que calça comprar, que camisa usar. Qual gravata combinava com o que, qual sapato era o mais usado. O corte de meu cabelo, a cor da borrachinha do meu aparelho. Até mesmo a hora de aparar os pelos de minha orelha ela dizia... que tristeza... que tristeza de homem eu havia me transformado! O que diria de mim Arturo Bandini? O que diria de mim Dean Moriarty, Henry Chinaski, meus heróis?
Um pau mandado, um homem com tanta fibra quanto chiclete que gruda nos sapatos e não quer sair. Uma piada de si mesmo...
No trabalho não era diferente, nem um pouco diferente. Na verdade era pior, porque nas quartas e sábados eu não comia meu chefe, nem ninguém do escritório por mais que quisesse. “O relatório está errado Davi.” “Eu sei. Claro que está errado. Eu não posso fazer relatórios corretos porque eu simplesmente odeio relatórios.”
Eu queria ser um grande astro do rock, um homem livre, sem destino, sem amarras. Eu queria ser um homem como todo homem sonha ser. Senhor do próprio destino, mas o máximo que eu podia determinar em minha vida, era que no meu cachorro quente o Pepe não punha as ervilhas. O relógio mandava eu me levantar, minha mulher mandava eu me arrumar, meu chefe mandava eu fazer relatórios dia após dia, e todos os dias era assim.
E agora tudo o que eu queria era voltar pra casa. Mas eu cheguei no ponto de ônibus e o vi saindo. Vi ele partindo. Primeiro devagar, soltando gás pelo escapamento, uma fumaça preta e fedorenta. Uma mulher esquisita correndo em sua direção, suas sacolas ameaçando rasgar.
Não, não, não... porque ele não podia me esperar? Porque ele não podia esperar mais um minuto sequer? Eu queria tanto descansar meus pés, minhas canelas, meus ombros! Queria tanto um banho gelado, uma hora e meia no sofá com o rabo pra cima, sozinho... talvez, eu tomasse um café, talvez eu ficasse nu e andasse pela casa do jeito que eu fazia quando estava no colegial e morava sozinho. Talvez se eu reparasse bem, o cobrador ou o motorista estariam me mostrando o dedo do meio sorrindo maldosamente para mim... tudo era possível!
A mulher da sacola gritou alguma coisa, mas eu estava triste demais para reparar o que. O garoto que vendia doces, me ofereceu alguma coisa que eu não quis saber o que era. O homem atrás de mim me cutucou uma vez, eu nem liguei.
Reclamaram algo sobre eu ter furado fila. Ainda bem que eu estava com meu canivete na bolsa! Ainda bem! Nossa, aquilo foi o alívio do meu dia! Aquilo foi minha vitória sobre o Pepe! “Quer me empurrar a porra das suas ervilhas Pepe? Quer? Tudo bem! Me enfie ervilhas no rabo! Enfie o quanto quiser, eu pago Pepe; pago tudo, pois sou um homem de bem! Agora veja o que eu faço sem que você possa fazer nada para impedir! Veja do que é feito um homem de verdade Pepe, um homem que escolhe comer suas ervilhas na hora que bem entender!”
Tirei o canivete da bolsa e enfiei três vezes na barriga mole do homem atrás de mim. A quarta estocada eu enfiei, e puxei o canivete para cima, rasgando suas tripas do umbigo até o coração. Ah... aquilo sangrou bonito, viscoso! A barriga do homem parecia um bêbado vomitando! Está vendo agora Pepe? Ainda quer me enfiar ervilhas goela abaixo Pepe? Ah, e para não dizer que sou um sujeito malvado e mesquinho, a senhora das sacolas que estava gritando e se mexendo, pálida, feito cera recebeu duas canivetadas no pescoço e uma na bunda quando ela caiu na calçada, deixando finalmente espatifar suas porcarias pela rua.
Agora sim, eu poderia esperar o próximo ônibus em paz e finalmente descansar o sono dos justos.

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